Promessas vazias

da série: crônicas
tema: saudade

promessasvazias [texto]

A chuva ali fora cai vagarosamente, ao mesmo passo que meu coração bate dolorido. Lembro-me bem de como tudo começou, mas não consigo me lembrar se um dia pensei que tudo teria um fim. Não, na verdade, consigo: nunca pensei. Enquanto meu olhar se perde no horizonte que se estende pelo vidro molhado, meus pensamentos, a um milhão, voam de um lado para o outro, fazendo questão de me lembrar que chegou o momento que eu não esperava que chegaria. 

Lembro-me que a chuva era um de nossos temas favoritos: O que faríamos em um dia nublado e, como você dizia,  “sem graça”? Eu respondia que você deveria aprender a ver beleza em dias assim também… Que poderíamos nos aconchegar em casa, só nos dois, e assistir aquela maratona de surf ou aos meus filmes românticos, sendo que, em ambas as opções, o momento seria sempre banhado de muito carinho, cumplicidade e atenção. 

Mas haviam também os dias quentes, nos quais você me tirava cedo da cama e me levava pra praia, praticamente arrastada, enquanto meu humor despencava. Você sabia exatamente o que fazer ou dizer pra fazer isso passar. E eu te assistia brincar feito criança na água; guardava seu sorriso em minha memória. Talvez eu já soubesse que esse fatídico dia chegaria, e eu já me preparava para não mais vê-lo todos os dias. Ainda consigo me lembrar com clareza dos seus olhos brilhantes, e da covinha que aparecia quando eu lhe fazia cócegas, e da pinta no lado direito do seu rosto, e dos cílios macios, e de todo o resto. Fresco como uma pintura feita em uma tela de solidão. 

E  as brigas; essas haviam de montes, mas eram sempre desculpas esfarrapadas para que acabássemos na cama (ou no sofá ou na cozinha ou na sacada ou em qualquer lugar que encontrássemos pela frente.) E você prometia, dentre tantas coisas, prometia-me que ficaria para sempre, e quando eu te olhava assustada, seu olhar me acalmava: “Nosso para sempre é diferente.” Eu sorria. Você sorria. Nós éramos um só. 

E as promessas… Essas foram tantas. Mal sabia eu que eram apenas palavras vazias; dessas que são jogadas ao vento sem intenção alguma. Você me disse que teríamos filhos, cachorros e gatos, e que eu poderia ter minha própria biblioteca, desde que você tivesse seu estúdio. Os planos! Ah, os planos. Embebidos em esperanças e ilusões, que mal eu sabia eu, eram planos que você planejaria com outras tantas. 

Um trovão me acordou do meu devaneio, e eu não ousei limpar uma única lágrima solitária que escorria pelo meu rosto e se aconchegava no canto de meus lábios. Já não tinha mais nada para chorar, nada para lamentar. Então, continuei a observar a janela, e, em meu reflexo, percebi que meus olhos nunca haviam sido tão vazios quanto nos últimos dias.  

[Texto por Giovanna Cuzziol]

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8 comentários sobre “Promessas vazias

  1. Giovanna, seus textos arrasando como sempre, rsrs. Muito bom mesmo! De promessas vazias, de expectativas não correspondidas, de momentos incompletos, assim caminhamos p/ um fim comum: a morte. Essa é a angustiante e poética beleza da vida. Abraço!

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  2. Olá Giovanna, tudo bem?
    Que texto lindo! Quando estava lendo, senti que as palavras eram tão reais sabe? Afinal, todos que já passaram por algo assim, irão se identificar. É uma situação horrível, mas a vida é assim, vivendo e aprendendo. Amei!
    Beijos!

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  3. Uau! Que texto delicado, belíssimo. O tempo todo ele indica algo que não está muito claro, e essa tensão, essa incerteza são pontos fortes do texto. Durante a leitura, achei que ele teria morrido, num determinado momento, que teria morrido afogado. Noutra, parecia que ele fizera promessas, mas que o para sempre teria acabado, como (quase) sempre. Somente no fim é que a coisa se revela. E a gente descobre que ele a manipulava, brincava com os sentimentos dela, como certamente fazia com tantas outras. Gostei do fato de que isso não estava dado desde o início. Desde o início, a única coisa evidente era… a ausência.
    Bela crônica amorosa!!! 🙂
    Beijos

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  4. Nossa que texto lindo, me fez ficar um pouco triste o que pra mim foi bom alias consegui entrar na historia!!!! É duro quando uma pessoa que a gente ama vai embora, independente se é namorado ou uma amiga só fica as lembranças boas de um momento bom, adorei seu texto amiga que venha muitos ainda melhor que estes!!

    -Beijoss

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