Rodas da Vida.

da série: crônicas.

sentada

Queria entender como chegamos a esse ponto. Veja bem, o mundo dá voltas, disso eu entendo muito bem, obrigada. É a volta dos ponteiros monótonos do relógio; a volta ao redor do sol que traz-me dia a dia novas sensações de esperança; a volta daquela velha bicicleta que agora encosta-se solitária no fundo da tua garagem; as mil voltas quando as rodadas de tequila passam descompassadas; a pirueta do ballet que eu gostava de observar enquanto o odor do cigarro preenchia nossa sala: que belo contraste, você costumava dizer. Mas essa visão de dama e o vagabundo se modificava rapidamente quando você me via rolar na grama de pés descalços e fugia para longe da lama. Dizia-me que éramos complementos de um só e eu te respondia que estava tão errado quanto Darwin e suas invenções; você ria dessa minha inteligência precoce e desajustada que não combinava com meu pijama e meu cabelo desgrenhados.  Continuar lendo

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A carta que você nunca recebeu

LONELY

    Não adianta eu me olhar no espelho e afirmar, com meu tom mais firme, que passou. Não adianta eu repetir ou recitar… Não passou.

    Consigo dividir o que passamos em algumas fases. A primeira delas, quando as coisas eram flores. Era quase como se o aroma inconfundível do amor nos rodeasse e nos inebriasse da cabeça aos pés; costumávamos ignorar a tudo e a todos simplesmente pelo fato de termos, um no outro, a proteção que precisávamos. O arrepio na espinha, agourento, porém, todos os dias, me lembrava de algo que não estava certo. Eu ignorei. Continuar lendo